II Fórum Rio Cidade Criativa construirá coletivamente Agenda 21 da Cultura

15/11/2011

De 16 a 18 de novembro aconteceu o II Fórum Rio Cidade Criativa: Construção Participativa da Agenda 21 da Cultura/RJ, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM). O evento gratuito teve distribuição de senhas para os debates por ordem de chegada. No dia 19, houve ainda um encontro na comunidade da Mangueira, onde funciona o Núcleo de Cultura Criativa Pano Pra Manga. Confira a programação completa.

O fórum é fruto do trabalho idealizado pela coreógrafa e diretora teatral Regina Miranda, que desde 2010 coordena o projeto Rio Cidade Criativa, viabilizado pela instituição que ela mesma criou, a Cidade Criativa/Transformações Culturais (CCTC). Carioca, Regina tem no currículo uma carreira internacional, com 30 anos de direção de uma companhia de dança e 15 em uma instituição nos Estados Unidos.

Em entrevista ao portal Agenda 21 Comperj, Regina se emociona ao falar da sua trajetória profissional, que conta com a parceria de anos com o MAM e o reconhecimento do projeto Cidade Criativa no Brasil. No bate papo a seguir, você confere mais sobre o projeto e a construção coletiva da Agenda 21 da Cultura no Rio de Janeiro.
 

Como surgiu o projeto Rio Cidade Criativa?

Eu estava morando em São Francisco, nos Estados Unidos, e lá fiz um mestrado que me levou a estudar sobre liderança em processos de transformação. Comecei a fazer uma tese sobre isso e percebi que queria voltar para o Rio de Janeiro. Decidida a não trabalhar mais de maneira reflexiva, isto é apenas para mim, criei um projeto gigante chamado Rio Cidade Criativa, baseado em um planejamento cultural para 2010 – 2020. E para isso fundei a instituição Cidade Criativa – Transformações Culturais, em 2010.

Como o projeto Rio Cidade Criativa e a Agenda 21 da Cultura se conectam?

No I Fórum Rio Cidade Criativa, realizado no MAM em outubro de 2010, convidei representantes da Agenda 21 como o Carlos Frederico Castello Branco, a Patricia Kranz e a Márcia Gama, pois já acompanhava o trabalho e achava importante. Mas, até aí eu não estava voltada para isso. Foi quando o Carlos Frederico sugeriu que eu coordenasse a Agenda 21 da Cultura. Eu respondi “como?” [risos]. E ele me explicou que o que eu estava fazendo já era parte do processo. Então, sugeri trabalhar de forma agregadora, ou seja, propor parâmetros e caminhos a serem discutidos pela sociedade.

O I Fórum Rio Cidade Criativa é então considerado um marco para esse processo.

Acho que os participantes do primeiro fórum deram um aval de confiança para o projeto. O que fizemos no Solar da Imperatriz, no Jardim Botânico, foi muito interessante, pois tivemos uma platéia ótima e que não estava acostumada a ver cultura como parte do meio ambiente.

Você pode dar um exemplo dessa relação da cultura com sustentabilidade?


Um exemplo importante que precisa ser tratado pelo aspecto cultural é o consumo. Há países desenvolvidos aconselhando nações em desenvolvimento a consumir com cuidado. Acontece que eles vêm com a cultura do “sem cuidado” há um tempão e, do outro lado, há um desejo reprimido dos países em desenvolvimento de consumir igual a eles. Então, eu acho que é um problema cultural. Como você vai entender que pode consumir sem depredar o meio ambiente? Até porque não se trata apenas do consumidor. Como esse produto está sendo ofertado? Dependendo da oferta, ele vai ser consumido de determinada maneira. Então, eu acho que a Agenda 21 da Cultura não é apenas a Agenda das artes. Os direitos humanos também estão ligados à área cultural, porque se a pessoa não entende os direitos que tem culturalmente, só vai brigar por eles e não se trata disso.

Um dos lemas do projeto Cidade Criativa é “ao invés de reclamar, preferimos agir”.

Um dos motivos que me levaram a fazer esse trabalho foi que eu decidi não fazer parte do grupo que se queixa. Acredito que há um novo lugar, dos novos tipos de governança e acho que o maior desafio desse projeto é fazer com que a sociedade civil brasileira se sinta empoderada e perceba a sua força de transformação.

Quantas pessoas trabalham na Cidade Criativa?


As participações são variadas, desde a pessoa que é apaixonada pelo projeto e faz uma reunião de vez em quando na casa dela até outra que apresenta pessoas. Ou seja, não estão presentes no dia a dia, mas são embaixadoras do projeto. No dia a dia somos poucos, a quem chamo de “heróis do cotidiano”. São participações que vêm do desejo e nada melhor para ter algo duradouro do que trabalhar a partir do próprio desejo e não do compromisso do dever.

Então o projeto não tem um público-alvo específico?

Não, ele é para quem se interessar. Em um evento no SESC, o Diálogos 21 da Cultura/Artes do Rio conheci uma senhora, a Diná. Ela tomava nota de tudo, era uma graça. Perguntei de onde ela tinha vindo e ela respondeu que achou a proposta do evento super interessante e foi porque achava que também fazia parte disso. Esse é meu público-alvo. Eu quero as Dinás e os Dinás.

E quem são os parceiros da Cidade Criativa?


O apoio inicial é voluntário, das pessoas e com apoio institucional de organizações como o SESC, o Jardim Botânico e o MAM que é o primeiro e grande parceiro. Agora, aconteceu aquilo a que a gente se propunha, em que cidade, estado e governo federal tomaram conhecimento do projeto e estão oferecendo apoio de ordens diversas.

Você citou o MAM como primeiro e grande parceiro. Qual a importância do museu no seu trabalho?

Eu chego a ficar emocionada, pois é um lugar tão maravilhoso no Rio de Janeiro e ter esse lugar há mais de 20 anos aberto para mim é um luxo [risos]. O MAM é um símbolo da cidade e quando você fala do Museu de Arte Moderna de qualquer cidade isso tem uma repercussão mundial. Fiz muitos eventos e um trabalho gigantesco, a Divina Comédia, um marco nas artes do Rio de Janeiro, onde ocupei até as salas onde as pessoas trabalham, a administração, o teto, os jardins, tudo. Na ECO 92 fiquei encarregada de todos os trabalhos artísticos no MAM. Também fui a única coordenadora de dança do museu. Costumo dizer que tudo o que faço no MAM dá certo.

E o que esperar do II Fórum Rio Cidade Criativa?


Existe algo que é o tempo apropriado para as coisas. Teremos a Rio+20 ano que vem, por exemplo, e agora que está começando a discussão no Rio de Janeiro nós já estamos na conversa. Além disso, o fórum foi desenhado pela Cidade Criativa com muita atenção e aborda temas centrais da Agenda 21 da Cultura. E estão acontecendo algumas coisas inesperadas: vamos receber uma representação do governo de Buenos Aires, que ficou sabendo do fórum e vem participar. Acho que está muito claro nesse momento que o local também é global e queremos que todos que se desloquem para o MAM se sintam participantes.

Em que etapa está o processo da Agenda 21 da Cultura no Rio de Janeiro?


De 2010 para cá fizemos mais um trabalho de convencimento, de mostrar a importância do processo. Temos, nesse momento, uma prática de democracia participativa e falaremos sobre essa prática. Queremos chegar a valores, princípios e caminhos e indicaremos isso para a Rio+20. Será necessário fechar o documento em fevereiro/março e a partir daí é preciso elaborá-lo, para que seja aprovado. Podemos ter sugestões de ações, mas acho que elas ainda não farão parte do documento, e sim serão um anexo, uma proposta.

Para você, o que é um exemplo de cidade criativa?

O melhor exemplo é Nova York, que começou esse tipo de projeto há 100 anos. O projeto cultural de Nova York é permanente, poderoso, com várias opções para turismo cultural. Pessoas que não consomem cultura nos próprios países consomem lá. Quando diminui o número de visitantes nos museus, por exemplo, eles trabalham para não perder essas pessoas. Tem que estar sempre ganhando. E por que é uma cidade criativa? Pois qualquer pessoa tem campo para fazer aquilo que deseja, encontrar interlocutores, outras pessoas interessadas e poder viver da cultura.

Há a possibilidade da Cidade Criativa fazer esse trabalho nas cidades do interior do Rio de Janeiro?

Foi motivante no primeiro fórum quando nos solicitaram para realizar o mesmo processo no interior do estado. No momento não era possível, mas no ano que vem eu espero que a gente possa prestar consultorias, até porque acho que, idealmente, esse processo deve ser liderado por pessoas do próprio lugar.

Além da Agenda 21 da Cultura, que outro trabalho vem sendo feito no Rio de Janeiro?


A Cidade Criativa tem um trabalho na Mangueira muito bonito. Temos um ano de trabalho e nesse tempo trabalhamos apenas as nossas relações, pois não interessa fazer política assistencialista e nem uma política cultural impositiva. Um caso interessante: trabalhamos em um prédio da ONG Mangueira Comunidade em Atividade. Se formos pensar nos padrões do que é ideal, o prédio está caindo aos pedaços. No entanto, é usado pela comunidade e ao invés de corrermos atrás de dinheiro para reformá-lo acho que o bacana é que a comunidade já usa o prédio assim e são os moradores que devem ser transformados. Se não for importante que o prédio fique lindo, ele não vai ficar.

E quais são as expectativas com o projeto Rio Cidade Criativa?

Do Rio vou para os Emirados Árabes apresentar o projeto. Mas, somos importantes e não enormes, ainda. Eu sempre gostei muito da margem como lugar de tensão, então o fato da gente não estar no centro para mim não é tão importante, a gente não pode é estar fora da margem. Os temas da Rio+20, por exemplo, já estão decididos e a cultura não é protagonista, o que não quer dizer que não podemos fazer como o Oscar, onde há atores maravilhosos que um ano são protagonistas e no outro são coadjuvantes, e vice-versa. Se ganharmos o prêmio de coadjuvante eu acho ótimo [risos].

Onde você acha que a cultura é protagonista?

Existem áreas de sinergia óbvias onde a cultura funciona como um adubo, mas existem áreas onde a cultura é protagonista. Há uma sabedoria popular milenar em todos os povos. Criança faz o que? Brinca. Claro que tem aquelas que são privadas disso, pois não têm o direito cultural de brincar. Mas, criança quer brincar, ela propõe a brincadeira, aprende brincando. É assim que o humano aprende a ser humano. Isso é da cultura e a arte é a protagonista. A ciência vem um pouco depois, nesse corpo já informado pela cultura.

Como você vê o setor cultural no Brasil?


Algo que eu gosto de fazer quando apresento meus trabalhos é perguntar “quem dentre vocês pensou em ser artista?”. É uma multidão. Quando eu pergunto quem ainda é, ficam alguns gatos pingados. Uma vez peguei um táxi até a Casa do Saber, na Lagoa, e estava no telefone tentando convencer uma pessoa sobre a importância da arte. Quando cheguei ao destino, o taxista me disse “eu quero dizer uma coisa para a senhora, meu filho é músico e até hoje não dei força para ele, mas eu vou ligar agora e dizer que ele pode ser músico, pois a senhora vai continuar com esse trabalho e ele poderá viver disso”. Olha que responsabilidade! E eu disse não vou largar, pode dizer para ele ser artista.
 

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