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Relato de uma leiga


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    Relato de uma leiga

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    Adorei a Audiência Pública sobre o Emissário Submarino e Terrestre do COMPERJ ontem dia 24.01.2012 em Inoã, Marica.
    Tudo muito bem organizado, ônibus vindos de todos os lados de Marica através de gratuidade da própria Petrobrás, segui a pé a partir de Inoã, porque era minha preferência, me guiando pelo trajeto todo marcado pra ninguém se perder. Dessa forma, vi que vieram vans da zona sul do Rio de Janeiro e até da Tijuca e Jacarepaguá!
    Apesar de tudo, iniciadas as apresentações, todo o aparato moderníssimo falhou na hora de tocar o Hino Nacional, mas a população presente não se intimidou e começamos a cantar em viva voz mesmo. Já me surpreendi aí. Organizados à frente de todos, uma banca de responsáveis pela EIA/RIMA perfilaram-se e apresentou tudo o que se propunham. Nesse momento, os 15 minutos garantidos a cada um se estendiam. Cheguei a pensar que seria esse o esquema: Falar muito, indefinidamente e quando nós da Agenda 21 e/ou outros fossemos falar, todos já teriam ido embora.
    Finalmente finalizado, iniciaram as apresentações dos 70 inscritos, fosse antecipadamente pelo site, tivesse sido ali na hora.
    A primeira questão levantada foi com relação à ausência do Ministério Público, que para muitos impediria a audiência. Mas não, foi verificado que poderia ser realizada apesar de. Sua ausência não inviabiliza a audiência, mas não dá legitimidade. Eles deveriam estar ali para defender a população...
    Depois de toda apresentação da Petrobrás, os inscritos puderam tirar suas dúvidas e reclamar o quanto quisessem. Fiquei até o final da audiência. Vi e ouvi todos os inscritos que, foram mais de 70. NINGUÉM ESTAVA A FAVOR DO EMISSÁRIO! Fosse dona de casa, médicos, advogado, ambientalistas ou não, autodidatas, associações de moradores, estudantes, professores, ninguém a favor! Ouvi a Ana Paula Carvalho dizer que o EIA estava ruim porque constava que Marica tinha uma prefeita e não prefeito, que era do PDT e não PT, que tínhamos uma população de 29 mil habitantes e que os desempregados eram desocupados. Ouvi que eles não devem nem ao menos ter tido o trabalho de ler esse EIA porque tudo o que consta ali deve ter sido usado control C, control v, (control X) porque a informação básica já iniciava com erros crassos. Ouvi a Ana Paula Carvalho dizer que o progresso era bem vindo, mas ‘NOSSA CASA, NOSSAS REGRAS’ e não esse EIA que deve ter sido colado do município de São Gonçalo.
    Ouvi, sem a ordem ocorrida lá, o Roberto Ferraz argumentar que jogando essa água do COMPERJ, tratada, imunda de produtos químicos, mataria os peixes, mas que se esse emissário fosse jogado a pelo menos 8 km além, seria possível. Ouvi outra pessoa dizer que na Barra da Tijuca, o emissário de lá fica a 10 km da praia, pra não matar os botos e perguntar: Por que em Marica, pode matar os nossos peixes? Ouvi falar de biota e que biota é o meio onde existe a vida. E que a biota estaria comprometida. Ouvi que diversas plantas endêmicas estariam correndo risco assim como o ratinho de espinho, único, que não constava no EIA. Ouvi Flávia Lanari questionar sobre a qualificação desse EIA, pois consta a falta de classificação de 63 espécimes de plantas o que é um número muito elevado, para um total de 203. Ouvi Arthou questionar as profundidades de 143 m que uma firma de São Paulo disse que seriam necessárias para preservar a biota. Ouvi-o explicar que talvez os paulistas não soubessem que as marés de Marica são atípicas de qualquer parte do mundo, onde a água gelada fica por cima, vindas das Malvinas e a quente fica por baixo, vindas do nordeste e que assim, qualquer coisa de ruim que vier a acontecer por aqui, certamente contaminariam todo o litoral brasileiro. Ouvi Isidro Arthou dizer que nossa praia contém um fenômeno que os pescadores chamam de olho de água, verdadeiros rodamoinhos e que quando ocorrem em oceanos, carreiam todos os plásticos e sujeiras que jogamos nas praias. Pois nas praias de Marica, possuímos esses olhos de água, o que quer dizer que qualquer porcaria que ocorra aqui, será distribuída adiante. Ouvi também que nossas marés, em determinados meses do ano, jogam ondas para a praia atingindo até casas, o que quer dizer que dessa forma, esse resíduo certamente contaminaria nossa areia e casas. Ouvi donas de casa questionando afinal quando é que a Petrobrás falaria com os moradores da região a respeito desse emissário e eles responderem que já tinham feito o contato. Ouvi-as reagirem, em grupo, dizendo que não tinham falado e que se falaram foram somente com algumas pessoas que seriam indenizadas, como se o efeito do prejuízo do emissário não fosse importante para todos da localidade. Ouvi um senhor, acho que é médico, entristecido porque já possui 67 (sessenta e sete) anos e levou a vida toda pra construir um patrimônio que assegurasse a tranqüilidade dos filhos e netos e que agora, recebe um relatório que diz que a cerca-viva que possui na frente da casa dele possui 20 anos e 4 meses! A do vizinho, 18 anos e 2 meses! Quanta precisão! Só faltava conter os dias e as horas! E que em sendo dessa forma, certamente sua casa, seu patrimônio, será demolida por um pedaço de papel inconsistente, inconsciente. Ouvi petroleiro perguntar pelo montante e diferenças de tipos de petróleo que o COMPERJ trabalharia, porque ele entende disso e sabia que certamente isso traria malefícios para a população e lugar. Ouvi advogado perguntar sobre a contaminação dos peixes e conseqüente contaminação humana ao ingeri-los. Ouvi a Petrobrás, através de seus representantes responder que esse perigo não ocorreria e explicava o porquê. O advogado pedia que constasse em ata. Depois ele perguntava sobre os perigos na pele dos moradores. E a Petrobrás através de seus representantes responder que não teriam esse tipo de problema. E o advogado pedir que constasse em ata. Se entendi bem, o mesmo advogado quis que constasse em ata também um seguro para os pescadores que não tivessem mais condição de trabalhar com o pescado após implantação do emissário. Acho que foi isso. E muito, muito mais.
    No meu entender, houve tentativa de frear os questionamentos, propondo uma parada de uns 10 minutos para servirem o lanche, devido ao avançado horário após início da audiência. Mas não conseguiram. Todos os questionamentos prosseguiam apesar do lanche.
    Todas as perguntas eram devidamente respondidas tecnicamente e a altura, o que não consigo explicitar aqui, posto que seja leiga. Mas também eram rebatidas, posto que em Marica tem muitos “feras” em ambiente e muitos apaixonados, sensíveis, por essa cidade de beleza ímpar que queremos preservar.
    A audiência foi concluída pelo próprio professor (não sei se era diretor) do CIEP, militante ambiental desde os quinze anos de idade. Este observou que o INEA, órgão estadual, responderia até onde pudesse alcançar, mas lembrou que o mar pertence à área federal e questionou a ausência do IBAMA. Observou também que diante de tantas evidências, de Itaipuaçú, Serra da Tiririca, Niterói, Saquarema etc, certamente o INEA não liberaria esse EIA que aí está. Eram 00h30min.
    Fátima Cristina

Rodape

Petrobras Ministério Meio Ambiente Secretaria Meio Ambiente